Integridade e transgressão – uma abordagem em relação ao uso de substâncias ilícitas

O uso de substâncias ilícitas no Brasil, infelizmente, ainda é enxergado como um tabu. Usuários de tais substâncias são vistos como imorais, sendo dessa forma excluídos da sociedade e privados de seus direitos como cidadãos. É fundamental ao profissional da saúde ter uma visão totalmente despida de preconceitos ao tratar desse assunto, já que há uma grande diferença entre o usuário de uma substância considerada ilegal (com fundamento baseado em aspectos culturais) e o adicto de uma substância que necessariamente e comprovadamente lhe cause dano. Neste último caso, pode-se considerar o indivíduo encaixado em um contexto de vulnerabilidade.

Ribeiro (2005) define o estado de vulnerabilidade como “estar suscetível a, ou em perigo de, sofrer danos”. Tal situação submete o indivíduo a uma condição de “desigualdade, inferioridade, fraqueza, limitação, destituição e restrição a que estão submetidos integrantes da sociedade”. Além disso, estes indivíduos possuem sua autonomia restringida, e isso diz respeito à “diminuição da capacidade de escolher, por impossibilidade de optar ou pelo contexto ou condições em que tais sujeitos se encontram”.

Felizmente, hoje indivíduos adictos estão mais inseridos em um contexto bioético em relação ao passado, já que eram considerados doentes mentais, sendo comum a internação em manicômios e hospitais psiquiátricos, muitas vezes por possuírem sua autonomia restringida. “A justificativa era que se esses doentes pareciam não ter uma noção sobre si mesmos, ou um controle sobre as atitudes ou discernimento para responder sobre seus atos, eram supostos não terem noção do outro, da comunidade ou até da realidade” (RIBEIRO, 2005).

Ações de inclusão são essenciais para essas pessoas, assim como um olhar compreensivo e cuidadoso do profissional da área da saúde. O fisioterapeuta, ao lidar com esse tipo de público, deve basear-se no pressuposto da defesa da vulnerabilidade, que subjaz à ética em saúde pública e coletiva e baseia-se no princípio aristotélico da justiça, o que implica “tratar os iguais como iguais e os diferentes como diferentes na justa medida de sua desigualdade”, prescrevendo o favorecimento a todos, independente de sua condição. Dessa forma, para que o indivíduo seja reconhecido como cidadão, ele deve ter suas diferenças respeitadas diante de suas peculiaridades.

Cidadania exige o reconhecimento da autonomia restringida, e também exige que as dificuldades sejam tratadas diferentemente, no direito que o cidadão tem de ser respeitada sua condição. Já a autonomia restringida ou reduzida deve ser respeitada no limite das possibilidades de cada paciente e de seu problema de saúde, fazendo-se assim, portanto, fundamental uma ética profissional e extrema delicadeza do profissional fisioterapeuta ao tratar e cuidar desses sujeitos e dos demais considerados vulneráveis.

 

Referência: RIBEIRO, Cléa Regina de Oliveira. ÉTICA E PESQUISA EM ÁLCOOL E DROGAS: UMA ABORDAGEM BIOÉTICA. SMAD – Revista Eletrônica Saúde Mental Álcool e Drogas, Ribeirão Preto, v. 1, n. 1, p.1-11, jan. 2005. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/smad/article/view/38617/41464&gt;. Acesso em: 15 maio 2017.

Amanda Riani

Advertisements

Leave a Reply

Please log in using one of these methods to post your comment:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s