Questões envolvendo a vida e a morte

O fisioterapeuta, assim como os outros profissionais da área da saúde, está sujeito a enfrentar situações cotidianas envolvendo dilemas éticos. De acordo com Renner, Goldim e Prati (2002, p. 136)1, “um dilema ético é uma situação na qual um profissional da saúde se depara com duas alternativas de tratamento ou condução do caso que tenham justificativas técnicas, mas com algum questionamento moral ou social”. Segundo Bamitt1, os dilemas vivenciados por fisioterapeutas são mais relativos a situações rotineiras do que a situações dramáticas, como exemplo, a eutanásia.

Contudo, qualquer profissional da área da saúde está sujeito a enfrentar situações menos corriqueiras e mais profundas, tal como o suicídio, a eutanásia e o aborto. Essas questões devem ser discutidas abertamente, já que são comuns e puramente humanas, porém, vivemos em uma sociedade conservadora, onde os valores religiosos se sobrepõem muitas vezes aos direitos humanos, contradizendo a realidade (pelo menos, na teoria) de que vivemos em um Estado secular. Dessa forma, esses e diversos outros assuntos são vistos como tabus, e pouco encaixados em um contexto político-social, o que retrocede ainda mais a busca pela liberdade individual na sociedade em que vivemos.

As reflexões feitas acerca da morte são muito mais profundas do que o fato em si, este que é puramente biológico e natural. Lidamos com pacientes que pensam de formas diferentes, cada um com sua visão de certo e errado, compondo o que chamamos de consciência moral (que está sempre interiorizada no indivíduo). Devemos respeitar os medos individuais de cada um, assim como suas crenças religiosas e os diversos fatores que influenciam sua visão e posição frente a morte.

De acordo com Duarte 2, o ser humano é “livre na medida em que possui a capacidade de se autodeterminar, ou seja, de optar por realizar ou não uma ação”, consistindo em “permanecer aberto e disponível para escolher o que há de melhor, de mais conveniente em cada circunstância”. Isso implica em que todo homem é responsável pelos seus atos. Outro conceito, filosoficamente falando, é o de autonomia, que se refere à “capacidade que o homem possui de analisar fatos, refletir sobre eles e só então deliberar. Por deliberar entende-se pôr em prática ou não determinada ação”. Em uma visão ética, a liberdade acaba quando interfere na liberdade de outra pessoa.

Acredito que o ser humano possui o direito de liberdade em sua própria consciência moral, ou seja, liberdade em achar o que é moralmente certo ou errado, o que resulta em liberdade e autonomia em suas ações, desde que não prejudique outras pessoas.

O suicídio, a eutanásia passiva voluntária e a eutanásia ativa voluntária envolvem diretamente a decisão pessoal do indivíduo, a um desejo de uma pessoa com ela mesma, e quem somos nós, e muito menos o Estado, para dizermos o que uma pessoa deve fazer com ela mesma? Em minha opinião, não temos esse direito. Da mesma maneira penso sobre o aborto. Enquanto se discute sobre onde e quando começa a vida, muitas outras questões de saúde pública estão envolvidas nessa temática. Mesmo de maneira ilegal, ele é e sempre foi realizado de forma clandestina, expondo uma grande parte das mulheres que realizam a prática a condições desumanas de risco de saúde e de vida. Não me parece ético o Estado intervir na decisão de uma mulher sobre o que fazer com seu próprio corpo, já que isso implica em retirar seu direito de liberdade e autonomia, e ainda, sujeitá-la a condições que ferem os mínimos dos direitos humanos.

Acredito que a eutanásia involuntária e a eutanásia não voluntária devem ser debatidas de forma mais profunda, já que nesses casos não há consentimento do paciente, retirando assim seus direitos de autonomia e liberdade. Nesse contexto, acredito que a família e as circunstâncias da doença e dos aspectos pessoais do sujeito devem ser consideradas.

De toda forma, a função e a posição do profissional da saúde torna-se fundamental em todas essas situações frente ao paciente, este que não pode sentir-se abandonado em momento algum. O cuidar e o apoiar representam, assim, uma importância tão significativa quanto a assistência/intervenção fisioterapêutica.

 

Referência 1: Renner, A. F., Goldim, J. R. e Prati, F. M. DILEMAS ÉTICOS PRESENTES NA PRÁTICA DO FISIOTERAPEUTA. Rev. Bras. Fisioter., Porto Alegre RS, v. 6, n. 3, p.135-138, 2002. Disponível em: <http://www.rbf-bjpt.org.br/files/v6n3/v6n3a05.pdf&gt;. Acesso em: 23 abr. 2017.

Referência 2: Duarte, E. O Ser Humano é Um Ser Livre. Disponível em: <https://pt.scribd.com/doc/45991140/Liberdade-Humana&gt;. Acesso em: 26 abr. 2017.

 

Amanda Riani

Advertisements

Leave a Reply

Please log in using one of these methods to post your comment:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s